E-mail do Léo #24
Sobre voltar para casa, Papai Noel, terapia com motorista, Baco Exu do Blues e camgirls.
É bonito esse movimento de fim de ano das pessoas voltando para suas cidades de origem para visitar a família.
Eu nunca fui embora para ter que voltar.
Uma criança desagradável
Eu descobri muito cedo que Papai Noel não existia, então minha diversão era descobrir quem estava fantasiado de bom velhinho.
Foi fácil quando apareceu um Papai Noel no jardim de infância, na escolinha. Não tinha muitos homens adultos no colégio. Chamei atenção de todo mundo para a obviedade daquele tio em questão não estar presente na hora que o Papai Noel apareceu.
Mas tem gente que prefere viver na cegueira.
Morei em vila até meus 18 ou 19 anos. A família da casa 6 era animada e eu passei muitos Natais enfiado na casa deles. O Papai Noel aparecia no terraço e acenava para nós, no térreo. Eu sempre prestava atenção nas conversas dos adultos e entendia quem estava com a função antes mesmo da aparição do personagem. Na hora, era só checar: Fulaninho está aqui? Nunca estava.
Eu me sentia muito esperto.
Um dia, vi a mãe de um amiguinho escondendo os presentes que o Papai Noel traria mais tarde. Ela pediu para eu não contar a verdade pra o filho, porque ele ainda acreditava no Papai Noel. Não contei.
Eu me senti parte do time dos adultos conspiradores. Eu devia ter uns dez anos.
O motorista fez perguntas difíceis
Dia desses, volta de show, eu dentro de um carro de aplicativo. Não era Uber, porque estava pela hora da morte. Era In-Drive.
O motorista de 50 e tantos anos me conta que está amando a vida de solteiro após ter emendado três casamentos desde os 18 anos. Eu digo que faz sentido, que ele já deve ter vivido todos os amores dessa vida. Ele me pergunta se eu tenho vontade de me casar.
Minha resposta é não. Mas ela pode mudar dependendo de com quem eu estiver. Não tenho vontade de casar, mas posso ter vontade de me casar com alguém específico. Faz sentido? Em todo caso, dou a resposta simples: não.
Ele emenda: não se apaixona?
Sim, me apaixono. Sou romântico. Mas também sou chato, exigente, autocentrado, metódico, filho único. Poderia dar uma resposta simples, mas boto tudo isso para fora, como se estivesse em ambiente terapêutico.
De repente, me pego tentando explicar como funciono. Mas não é para ele, é para mim. Estou tentando me entender no banco de trás. Eu sou romântico mesmo? Não deveria namorar mais, se sou romântico? Será que eu quero mesmo? Ou só não me querem? Ou a realidade é muito pouco romântica para mim? Fico com essa opção, mas não conto.
O motorista diz que adorou me conhecer, me dá cinco estrelas, e fala que agora está na fase “cachorro louco”. Ele faz questão de explicar: encostou, o pau sobe.
Não encosto.
Sem energia
Nunca cheguei ao fim de um ano tão cansado. Não sei se é a idade, 2025 ou minha vida especificamente, mas consumiu toda minha energia.
Se dia 31 é o ponto de chegada de uma corrida, me arrasto até lá.
Se conselho fosse bom, não se dava, se vendia, mas…
Eu dou: Já falei do álbum do Baco Exu do Blues aqui? “HASOS”. Tenho ouvido frequentemente desde que saiu, porque fiz uma entrevista com ele para o POPline. Minha música favorita é “Romance latino”, que traz o conselho “fique rico antes de se apaixonar” (é preciso dinheiro para beber ou comer muito na fossa).
Infelizmente, já saiu de cartaz, mas vou falar mesmo assim do solo teatral “TIP (Antes que me queimem, eu mesma me atiro no fogo)”, com texto e atuação de Milla Fernandez. Vai que o espetáculo volta em 2026. A peça trata da experiência real da atriz como ‘camgirl’ - essas pessoas que se exibem em sites adultos em troca de dinheiro. Sem conseguir trabalhos como atriz, ela botou uma peruca e tirou a roupa na Internet. E agora trouxe isso tudo para o palco, com uma performance cativante, dirigida por Rodrigo Portella. Caso tenha mais apresentações, não perca.
(Foto: Divulgação / Foto: Ale Catan)
Prometi te trazer uma distração para a ceia de Natal e prometi.
Agora só em 2026.
A gente se vê do outro lado da linha de chegada.
Obrigado pela companhia em 2025.
Espero ter agradado.
Beijo,
Léo





Adorei o e-mail, Léo! Essa sensação de “ser parte do time dos adultos” era muito boa! Me deu uma nostalgia muito gostosa, ao te ler!
Me sentia o máximo tbm, quando só eu não acreditava mais em papai Noel!
Tbm estou me arrastando nesse final de ano! E o pior, é que no dia 05 tudo vai estar igual como sempre foi 🥹
Ótima passagem de ano, viu?! Muita paz, energia, sucesso pro ano todo!